Existe tanta coisa escrita, tratados imensos sobre a obra de Lewis Carrol, sobre a personagem mimada de Alice e sobre outros "pormenores" psicológicos da obra, mas escrevi sobre o que eu sinto ao me lembrar desse conto de fadas.
Eu me lembro que quando era criança, não gostava do desenho Alice no país das maravilhas. Achava a Alice muito boba, muito infantil e era muito confuso todo aquele sofrimento, ela vivia em apuros, fugindo, angustiada. Talvez eu sentisse que a imaginação tivesse que ser algo bom, como os príncipes encantados. Quando Alice acordou do sonho eu até fiquei aliviada.
Depois de adulta, ao rever Alice, percebi que apesar de ser um mundo de fantasia infantil, os recados que a estória passa fazem a gente pensar como adultos. A pressa do coelho, a prepotência da rainha, a sordidez do gato, a sedução cavalheira do chapeleiro, faz você ver que Alice, ao fugir do mundo adulto, se depara com um mundo de fantasias, onde tudo que ela não gostava no mundo real, se torna bizarro e exagerado. Alice é criança, mas nesse mundo imaginário, onde todos se comportam de forma inconseqüente, ela tem que ser a adulta. Em uma passagem do livro, Alice se depara com uma encruzilhada e tem que escolher um caminho, mas ela não tem idéia para onde ir: ela é somente uma criança!
Na primeira estória, Alice foge porque não quer a responsabilidade do mundo real e as imposições dos adultos. Sabemos que o mundo das maravilhas não é tão maravilhoso assim. E ela acorda e acha que sonhou tudo aquilo. Moral da história: o mundo real até que não era de todo mal.
Agora, a estória se repete.

É, Alice, dessa vez o buraco é mais embaixo...
Alice tem 17 anos e vai ser pedida em casamento, na frente de um monte de gente. Novamente, o mundo real impõe a ela o que ela não quer, ou seja, prendê-la à realidade chata e conservadora. Nesse momento ela vê o coelho branco e vai atrás dele, como que num gesto repetido, daquilo que ela quer, a liberdade de escolher.
Assim começa “Alice no país das maravilhas”, filme amplamente divulgado, comentado, licenciado, etc. Um filme realmente maravilhoso, do diretor Tim Burton (Lenda do cavaleiro sem cabeça, Planeta dos macacos, Sweeney Todd ), com um elenco estelar (Jonnhy Deep, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, entre outros) Tim Burton é mestre em personagens bizarros e sombrios, nada melhor que dirigir uma estória onde todos são impares em suas manias e esquisitices. Mas como é um filme da Disney, o colorido e a fantasia se tornam obrigatórios!
Mas o que eu queria comentar aqui é justamente sobre essa passagem de tempo, filosofar sobre quando, mesmo adultos, não aceitamos essa transição de certa forma imposta. Nessa nova aventura de Alice, o problema não é crescer, mas impor a realidade aos seus olhos e à sua mente. Os olhos e a mente de uma menina que sempre foi livre, aventureira, e obrigá-la a se tornar adulta aos olhos dos outros.
Essa transição não é tão fácil, mas não há como fugir dela. Há 100 anos, época em que se passa Alice, então com seus 19 anos, o comum eram meninas adolescentes se tornarem mulheres na marra. Casavam-se para serem aceitas como bem sucedidas, ao contrário dos dias de hoje, em que a mulher quer trabalhar e ser independente. Alice não aceita essa transição, não da maneira que os outros a apresentam. Ela quer sonhar, se iludir, e quem sabe, sonhar com o mesmo príncipe encantado que eu sonhava quando era criança, pelo menos se dar ao prazer de poder escolher esse príncipe (e no filme de Tim Burton, existe esse “romance” velado entre Alice e o Chapeleiro).

Alice no País das maravilhas mostra uma Alice que cresceu fisicamente, mas que reluta em deixar a adolescência pelas mãos dos outros. Ela quer escolher seu caminho, preferindo viver uma aventura louca, correndo, se livrando de cortar a cabeça, porque nesse mundo ilusório, todos dependem dela Ela só quer ter escolhas, mesmo que mais uma vez, ela escolha voltar para casa.
A obra Alice no país das maravilhas é extremamente instigante, porque para cada um, ela tem um significado, tudo depende DA FASE DA VIDA em que se está. Em cada fase, vivenciamos um aprendizado, e assim, seguimos nossa vida. A estória não envelhece porque sempre vamos querer vivenciar o novo, sonhar, fazer nossas próprias escolhas. Mas como naquela frase famosa “Acorda, Alice!”, tem hora que não podemos fugir da realidade.
É isso. Sonhos e fantasias fazem parte da nossa vida, crescer também. Só não queiram nos impor aquilo para o qual não estamos preparados ou não queremos. Tudo tem seu tempo. E que cada menina possa chegar na encruzilhada da vida e poder errar o caminho para voltar atrás, sem ressentimento, nem desesperança. Crescer faz parte da vida, ter escolhas também
G.P.
(Texto escrito para o site SeR - Sexo e Relacionamentos)| Comentários |
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