Georgia on my Mind

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Briga de titãs

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Tenho dois cães lindos, dois setters, irmãos, são meus xodós. Estão com quase 9 anos de idade já, são bonitos, alegres, dengosos, como um bom setter irlandês. Mas eles tiveram uma passagem na vida não muito boa: o Scott, irmão mais magrelo, tem síndrome de cão alfa. Resolveu um dia que o território da casa era dele, o dono era dele, tudo era dele. E quis se impor pra cima do Xuxu. Xuxu é o irmão mais forte e bem maior que ele. Acho que na natureza, um animal maior e mais forte, tem sempre mais chances em relação a outros mais fracos, não é verdade? É sim, sei disso na pele.

Eles se pegaram, em um dia, 8 horas da manhã. Com muito esforço, separamos. Scott veio do nada e partiu pra cima dele. Ciúmes? Não, cães não têm ciúmes, defendem o território, se impõe. Ficaram separados por alguns dias, voltaram as boas, se lamberam, ficaram numa boa. Eis que 5 dias depois,  se encontraram no corredor e Scott, partiu pra cima do Xuxu. Luta de titãs. Xuxu pegou no pescoço e vi, por alguns minutos, um cão filhote, sendo morto por seu próprio irmão. Essa briga durou muito tempo, pois não tínhamos como separar, até que o pedreiro em casa, se meteu no meio e conseguiu, levando uma mordida na mão. Depois disso, há alguns anos, eles vivem separados.

Quando se encontram no portão, Scott sempre levanta o rabo e arrepia o pelo (sinal de macho alfa), e Xuxu abaixa a cabeça. Na minha cabeça, eu descrevo o seguinte pensamento do Xuxu: ah, não, lá vem o magrelo querendo apanhar, que saco! E apanha, como apanha.

Essa semana ocorreu o que eu sempre temo: outra briga. Por culpa minha. A gente não pode negligenciar nunca com animais, por mais lindos e fofos que sejam conosco, são animais, tem seu instinto no sangue.

Martina, minha setter me viu pelo vidro da porta da cozinha e ficou toda feliz, Xuxu vinha junto e encostou no rabo dela. Ela virou e o mordeu. Ele, nem piscou, partiu pra cima dela. Aí, vocês perguntam: macho ataca fêmea? Sim, ataca.

Tenho uma outra cachorra em casa que está no cio, está separada, e os cães machos ficam meio sem controle sobre suas emoções. E quando estão excitados, seja sexualmente ou por alegria, pra mostrarem quem manda no território brigam. Por isso, muitas vezes, um ossinho para agradar inicia uma briga entre cães.

Passei pela porta para tentar puxar a Martina pelo pescoço e separar do Xuxu. Scott estava dentro de casa comigo e com a pata, abriu o restante da porta. Voou para cima do Xuxu. Martina saiu correndo (filha da mãe!) e eu, gritando, como se fossem se separar com isso. Cães grandes, com mais de 30, 45kgs, com bocas e dentes enormes, não se metam no meio. Eu tentei separar, fui arrastando, vieram parar dentro da minha cozinha. No afã de tirar os dentes do Xuxu do pescoço do Scott, pus a mão dentro de sua boca, soltei, mas em compensação, levei 4 mordidas profundas na mão, consegui tirar, afinal, o Xuxu queria o Scott e não a mim.

Com a mão toda rasgada, me afastei, mas conseguia mexe-la, não havia quebrado nada. Mas uma vez, olhando pro Scott, com a língua roxa pra fora da boca, não tive dúvida, fui novamente tentar soltar a boca do Xuxu. Ele virou e me mordeu o braço.

A sensação de ser mordida é algo além da imaginação. Nesse momento, você pensa como você é um nada. Senti meu braço ser furado e chacoalhado, senti a força da mandíbula canina. Imaginei em segundos, as pessoas que são atacadas por rottweillers, pitt bulls e não conseguem escapar, que perdem pedaços do corpo, que ficam traumatizadas. Eu me senti sendo esmagada. Gritei e ele só me soltou porque o Scott pulou pra cima da cabeça dele e mordeu sua testa. Me arrastei e fui até o telefone e pedi ajuda. Estava sozinha em casa.

Entrei em choque, não conseguia respirar, porque amo muito meus cães, não tinha medo de me machucar, mas de ver algum morto. Fui me arrastando, mas no meio do caminho, a minha força foi voltando. Continuavam na cozinha, um agarrado ao outro, porém mais cansados.

Passei por eles e fui até o quintal, peguei a mangueira e voltei. Peguei o jato de água e enfiei no nariz do Xuxu e segurei sua guia. Ele soltou o Scott, virei sua cabeça e consegui puxá-lo aos poucos para fora da cozinha. Scott atacou sua bunda e eu enfiei a mangueira no nariz dele. Xuxu fazia uma força descomunal pra virar a cabeça e eu ali, firme, segurando. A força veio do medo de ver meu cachorro morto.

Aos poucos, enfiando o jato de água no nariz deles, consegui pô-lo pra fora, arrastando, Da bunda, Scott mordeu a pata, o pé e fechei a porta de vidro, de correr. Sentei do lado de fora, toda molhada, os dois ensopados. E Scott ainda latia do lado de dentro, pensando: vem, seu frouxo, que eu te pego! E Xuxu, querendo passar pelo vidro. Com muito esforço, levantei e fui molhando a cara dele, até se afastar. Nem lembro de se fechei a mangueira. Entrei, fui cambaleando até o quarto e cai no chão, sem forças. Durante uma meia hora, respirei pela boca. Poderia ter tido um ataque cardíaco ou um derrame, tamanho o choque que senti. Agora eu sei por que alguns torcedores, sob o impacto de uma forte emoção, têm um ataque cardíaco fulminante.

Resultado da luta: Xuxu com um talho na cabeça, medicado. Scott com o focinho esfolado, medicado. Eu com três furos de mordida profunda na mão esquerda, fora as mordidinhas mais leves que viraram escoriações, um senhora mordida no antebraço direito, com dois furos profundos dos caninos, os dedos da mão esquerda não fechavam e uma dor no corpo de quem havia levado uma surra daquelas, da tensão que ficamos na hora. Mas depois de dois dias, estou quase 100%.

Mas devo confessar, tive um trauma no dia. Tive vários momentos que passaram pela minha cabeça, o que eu faria se os dois me atacassem? Acho que a gente sabe onde se mete. Ou não. Isso ainda está na minha cabeça. Deveria ter pegado logo a mangueira, certo? Mas na hora, a gente não pensa direito, age por amor. Depois, a inteligência da sobrevivência fala mais alto.

Não se metam em brigas de cachorros grandes, por mais que eles tenham amor por você. Eles não sabem o que fazem. Xuxu, quando me viu no dia seguinte, abaixou a cabeça. Scott, no mesmo dia, quando me viu deitada, veio todo feliz, pra me lamber e ficou do meu lado. Se ao invés de morder o irmão, tivesse partido pra cima de mim, eu não estaria aqui escrevendo. Estaria morta. A gente é muito frágil como ser humano, não fomos feitos para mordidas de animais, não temos pele solta, nem pelos protegendo.

Cada um na sua raça. Ame seu animal, mas não se meta a valente. Use mangueira com água no focinho, eles sufocam e largam, mas não matam ninguém.

Eu tive sorte. Mas não vai mais acontecer. O cuidado agora é a base da minha alegria com meus cães.

 

G.P.

Agora, veja como ficou meu braço, dois dias depois do ocorrido:

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Última atualização em Dom, 25 de Abril de 2010 21:34